Avançar para o conteúdo principal

"A Solidão de Nevena"

 



Foto by Masha Raymers

Bom dia!

Apesar de o Dia Mundial do Teatro já ter passado, gostava de partilhar convosco, o meu último texto que escrevi para teatro.

Aceitei mais uma vez o desafio do Pedro Amaral do Jornal Digital de Braga e desta vez o desafio era escrever um texto dramático. Podia escrever sobre mil coisas diferentes, mas resolvi escrever sobre um tema, o stress pós traumático de uma mulher que passou pelas agruras da guerra.

Esta mulher não combateu, mas em vários momentos da sua vida por causa da guerra, sentiu a solidão, a angústia, o medo.

Não escrevi com conhecimento de causa, apenas dei asas à imaginação.

Este monólogo tem um nome diferente, Nevena. E porquê Nevena? Posso-vos contar que o título inicial era "A Solidão de Calêndula", mas após uma breve pesquisa descobri que a palavra calêndula (que é uma flor) em ucraniano significava Nevena e assim ficou o título do texto.

Este foi um trabalho que deu luta, mas tenho muito orgulho, no resultado final.

Deixo-vos o texto para que possam ler:

A Solidão de Nevena

"Mulher sozinha em palco, deitada no chão, aos poucos acorda, espreguiça-se, sempre com um ar fechado e triste.
Senta-se de frente para o público, para por momentos para olhar o horizonte, passa as mãos pela cara e pelo cabelo, abraça-se e num movimento contínuo balouça o corpo.
Ouve-se o som da sirene de ataque aéreo, a mulher levanta-se e anda em círculos, tapando os ouvidos, o som vai-se dissipando e a mulher volta a sentar-se no chão de frente para o público.

Nevena - Este som ensurdecedor corrói-me a alma, está sempre aqui dentro dos meus ouvidos. É o uivo das sirenes, tal qual um grito de horror… é o estouro das bombas, agora, depois e depois volta tudo de novo, uma e outra vez. Horas nisto, horas!
O que sinto na realidade, não sei ao certo, é uma inquietação, é uma angústia profunda, não conseguir entender porque é que os homens são tão impiedosos, tão vis, tão cruéis.


(Adotando uma postura e voz de criança.) 

A primeira vez que ouvi falar na palavra guerra era muito pequena, não consegui perceber o significado desta palavra. Apenas ouvia os grandes a falar sobre ela, sobre as tropas, as mulheres escondidas choravam e eu não entendia porquê?~


Acabei por entendê-lo pouco tempo depois, quando uma noite, tudo estava em silêncio e eu ouvi a guerra a começar. Fomos todos apanhados de surpresa, quando a sirene tocou ensurdecedora. Alguns foram a tempo de se esconder, mas nós ficámos… conseguimos resguardarmo-nos na nossa dispensa e a rezar para que tudo acabasse. Quando tudo acalmou, saímos da dispensa e vimos a nossa casa destruída, as paredes rachadas, os vidros das janelas simplesmente tinham desaparecido e ainda assim, insistimos em manter-nos em casa. Na noite seguinte e já depois de mais dois ataques, tivemos que fugir para o abrigo que existia no fim da nossa rua. Quando lá chegamos fiquei surpreendida quando vi tanta gente naquele lugar, reconheci algumas caras, muitas mulheres com crianças pequenas e muitos idosos. Todos tinham algo em comum, um olhar vago, triste, sem esperança. No pouco tempo que podíamos sair do abrigo, procurávamos avidamente o sol, mas os dias já não eram iluminados. Mesmo que não houvesse nuvens no céu para nós todos os dias eram sombrios, de chuva, frios… Uns dias depois o meu pai andava muito atarefado de um lado para o outro, a arrumar algumas das suas coisas, até que se foi embora… eu ainda corri atrás dele e chamei-o:


Nevena - Papá, papá! Não te vás embora, não me deixes aqui, leva-me contigo.


Pai - Nevena, meu amor, não posso, não posso levar-te comigo. Vou para um sitio muito feio. Vou, mas prometo voltar.

Só que esse dia não aconteceu, o meu pai não chegou a voltar… A minha família ficou dilacerada, a minha mãe com o desgosto deixou-se morrer, a minha irmã foi levada para um destino longe de mim e eu fiquei.


Um dia levaram-me para um lugar onde estavam muitas outras crianças como eu. Apesar de sermos muitos, aquela casa era tão terrível e medonha que temíamos a nossa própria sombra. Os dias passavam e eu sentia-me cada vez mais abstraída do que passava à minha volta. Uma vez alguém me perguntou: 


Desconhecido - A guerra já acabou?


Nevena - Não sei... (pensando interiormente) para mim era como se ela tivesse acabado de começar, continuava a sentir na pele todo o medo, toda a agonia dos primeiros dias. À noite quando colocava a cabeça na almofada e fechava os olhos, aqueles uivos emergiam e destruíam-me aos poucos. Dos meus olhos precipitavam-se grossas lágrimas que mais pareciam fel. E as noites eram passadas em branco.

(Levanta-se, dá alguns passos, abandonando a personagem de criança e tomando a atitude de jovem, senta-se num outro ponto do palco, como se estivesse a olhar para o horizonte.) 

Até que num dia de sol, tudo mudou. Estava sentada olhando o horizonte lutando contra estes meus fantasmas quando senti que alguém se juntou a mim… e ali ficámos os dois sem nada dizer, apenas limitamo-nos a contemplar o que nos rodeava. Era já primavera, via-se aqui e ali os resquícios de um gélido inverno, mas o sol fazia despontar pequenas maravilhas na natureza.


Várias vezes voltávamos aquele lugar e, o nosso mundo era ali, debaixo daquela bétula que nos acolhia como se fosse a nossa casa. Uma certa manhã apercebemo-nos que algo maravilhoso estava a acontecer diante nos nossos olhos. Uma pequena nevena estava a nascer por entre duas pedras, ainda geladas e com restos de neve. Este era o pretexto para nos afastarmos e lá irmos nós, cuidar da nossa nevena. Dia após dia, ela crescia, até que timidamente floriu e os momentos cinzentos tornaram-se na mais bela poesia. Sorriamos, até que ao cruzarmos os nossos olhares, o coração disparou não pelos medos, mas agora pelo calor que o amor, desconhecido até então, despertava em nós. Aquela nevena solitária uniu-nos, já não falávamos da guerra, dos fantasmas, das angústias…  agora só pensávamos nos dias que estavam para vir.


(Assumindo uma postura de pessoa mais velha, curvada pela idade) 

E assim foram muitos e muitos anos, até que um dia, suavemente com um sorriso nos lábios o meu Lypa partiu. E eu mais uma vez fiquei…  mas agora já não vivo com os fantasmas da guerra, sobrevivo rodeada dos anjos do amor."

Também podem ouvir um pouco do texto através destes pequenos vídeos:

A Solidão

A Solidão

Podem também ler e comentar este texto na Página do Jornal Digital de Braga.

Quem sabe se este texto não será um ponto de partida para uma peça de teatro...

Gostava de saber as vossas sinceras opiniões.

Beijos e abraços.
Sandra C.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Entrevista - Cantinho da Tily 10 anos a Blogar!

Bom dia! Para terminar o mês de Agosto em beleza, nada melhor do que uma entrevista. Quem vos trago hoje é Matilde Moreira, ou para quem conhece o blog a Tily. A Matilde já esteve numa outra entrevista aqui no blog  a falar como é o Natal em família. Hoje vamos falar do seus 10 anos de blog. Espero que gostem e que passem pelo blog da Tily. -Quando criaste o "Cantinho da Tily"? *O blog foi criado em 2010 ou 2011, salvo erro, a titulo experimental e comecei oficialmente a escrever nele em 2012 :) - Criaste o blog porque sentias necessidade de escrever ou contar algo? Ou foi puramente para teres um hobby? *Sempre adorei escrever e o meu marido como sabia disso, teve a ideia e ajudou-me a criar o blog no WordPress. E sim, considero o blog como um hobby que me dá muito gosto e prazer.  - Consideras que o blog é um diário para ti? Ou o propósito não é de todo esse? *Sim, posso dizer que o blog é uma forma de diário onde gosto de partilhar memórias, experiências e opiniões.  -...

É Preciso - Miguel Gameiro

Bom dia!! Hoje trago-vos a mais recente música de Miguel Gameiro. Acho piada olhar para ele e ao mesmo tempo olhar para mim e para muitos desta mesma geração, como mudamos com o passar dos tempos. Não que isso seja mau, bem pelo contrário... As músicas do Miguel sempre me tocaram muito, não só porque acompanho o trabalho dele quase desde o primeiro momento, mas também vejo muita das minha verdades nas letras e músicas dele. Somos da mesma freguesia, eu cresci na terra ao lado da dele, temos amigos em comum, no entanto só nos cruzamos uma única vez, num momento bem triste. Voltando a esta canção, mais uma vez acertaste na muche, esta é mais uma daquelas canções que daqui a muitos anos, os nossos filhos e netos vão querer saber a história dela! Parabéns!!                                               Foto by Facebook Miguel Gameiro  É preciso Parar ne...

Pensamento da Semana - Conchas na Praia...

Bom dia! Hoje trago-vos uma imagem destes dias ausentes por terras de Tavira e arredores... "Sonhos são como as conchas que o mar depositou na costa. Você deve coletá-los e ouvir a sua voz." Flavio Gonçalves Filho *Fotografia de minha autoria. Praia do Barril - Tavira - Abril 2021. Beijos e abraços. Sandra C.