segunda-feira, abril 30, 2018

Fernando Grave- A visão mais politica do dia da Liberdade...

A entrevista de hoje é feita a um senhor que admiro muito. Conheço-o desde pequena e sempre me habituei a vê-lo junto da população e a trabalhar em prol da terra que me viu crescer!
As opiniões aqui expressas e os locais que aqui são referidos dizem respeito à freguesia de Belas e à localidade da Idanha (também da mesma freguesia).
Será ainda publicada o relato da sua experiência na guerra colonial num outro post.
Espero que gostem.

O dia 25 de Abril foi muito importante para Portugal. O que mudou nesse dia ?
- O 25 de Abril foi pela Revolução, uma data muito importante em Portugal e na sua História.
Nesse dia (25 de Abril), foram anuladas e controladas as estruturas que suportavam um
governo caduco e toda a estrutura que o apoiava, o lixo governativo no poder foi apeado, foi
controlada e apeada a Legião e foi controlada e apeada essa estrutura repressiva tenebrosa
que era a PIDE.
De resto o 25 de Abril, foi o culminar do descontentamento de todo um Povo, que para alem
de dificuldades conjunturais politicas e económicas existentes, se viu confrontado com uma
guerra de muito difícil justificação e que apenas serviu para destruir/limitar toda uma
juventude, dos países que nela participaram.
Foi como disse um politico da nossa praça, um cortar com a vergonha.


A ditadura esteve activa em Portugal durante 48 anos. Sentia isso na pele no seu dia a dia?
- Nasci no princípio da década de 40, o mundo na altura atravessava uma guerra mundial a 2ª,
Portugal,ainda que não sendo um participante directo sofreu bastante com as suas
consequências. 
Nascendo em Belas (no Concelho de Sintra), sempre vivi (desde o 1º mês de vida), na Idanha, terra à época, de grandes carências, tive a sorte de ter um Pai, que tendo um emprego certo, e por consequência um ordenado mensal garantido, me proporcionou uma vida bastante
equilibrada. 
O facto de ter Avô e Tio, sapateiros de profissão, também me permitiu que nunca tivesse de andar descalço, o que para a época era uma mais valia.
Companheiros/amigos de infância, tive, que só calçaram sapatos, para ir ao exame da 4ª classe, pode parecer exagero, mas é a pura da verdade.

O Fernando também foi um dos Portugueses que esteve na Guerra Colonial. Onde esteve e
quanto tempo esteve?
- Sim estive na Guerra Colonial, o desenvolvimento da minha vida militar e os pormenores do
que foram os quase 4 anos de militar vão expressos em pormenor que anexo a este texto.
(Texto a ser publicado posteriormente)


O que sentiu no dia em que embarcou? Sentiu medo?
- Não, quando se tem 22 anos (idade com que embarquei), o medo é uma situação que
facilmente se ultrapassa, havia conhecimento mínimo ao que ia, já tinha alguma experiência
de vida e politica na altura.
De resto não, não tive medo, dentro do que é razoável alguém poder dizer aberta e conscientemente que não tem medo, quando vai enfrentar e participarnuma guerra.


Alguma vez temeu pela vida?
- Não, não inventei, os momentos menos bons porque passei, nunca deram, em consciência, em
temer pela vida.


Quando finalmente chegou a Portugal sentiu-se aliviado? Tinha medo do futuro?
- Alivio, foi apenas por deixar de participar naquilo que sempre considerei uma guerra injusta,
sem qualquer razão para ter acontecido.
Quanto ao futuro, já estava, desde os 17 anos,empregado na Sorefame, onde me mantive até aos 
49  anos.

Quando regressou ao trabalho, existiam repressões, ou as coisas decorriam calmamente?
- Nada disso, os meus companheiros de trabalho já conheciam as minhas opiniões sobre a guerra, foi bem vindo o meu regresso, tudo de resto se passou com natural normalidade.


Conheceu alguém que tenha sido preso politico? Se sim, porque razão tal aconteceu?
- Conheci vários presos políticos, acompanhei a vida dentro da força politica que sempre foi até
hoje o meu guião idealista desde os 17 anos, (1960), altura em que entrei para a Sorefame.
Conheci na clandestinidade, vários camaradas, que tinham sido vitimas das sevícias da PIDE. 
A minha vida de ligação ao Partido, ganhou outra dimensão a partir de 1967, depois do regresso
da Guiné, onde entre outros tive até 1971, como “controleiro”, (era um nome usado na
altura), o meu saudoso amigo e camarada José Casanova, que foi durante muitos anos
director do Jornal Avante. 
A vida e os tempos passados na prisão, não eram tema de conversa nos encontros na clandestinidade.


Mais perto de 74, no seu núcleo de amizades falava-se que algo estaria para acontecer, ou
o 25 de Abril foi uma surpresa para todos?
- Após o movimento das Caldas da Rainha, algures em Fevereiro/ Março de 1974, era espectável
que algo andaria no ar, na época, houve em Janeiro/Fevereiro uma greve na Sorefame, durou
cerca de 3 dias, com a PIDE cá fora à espera de fazer valer a repressão que representava,
felizmente tudo se resolveu internamente.
Em Novembro de 1971, fui em missão profissional, para Moçambique, (Cahora Bassa), donde
regressei em Dezembro de 1974, nessa época (Abril de 74), ainda não tinha regressado às
minhas actividades políticas, pelo que não sabia de todo que o 25 de Abril estaria para tão
breve, acredito que para a maioria dos portugueses ainda que esperada a revolução foi uma
surpresa.

Acompanhou de perto os acontecimentos nesse dia?
- Naturalmente, embora estando a trabalhar no dia 25 de Abril, logo que soube do que se
estava a passar, fui-me inteirando, de uma forma bastante interessada, dos desenvolvimentos da revolução.


Tudo o que aconteceu no pós 25 de Abril, foram momentos muito conturbados, alguns
excessos foram cometidos. Como vê o que aconteceu nesses tempos ?
- Foram de facto tempos algo conturbados, foi feita a revolução, haviam muitos interesses em
jogo, o próximo conselho da revolução era uma mistura de pensamentos de esquerda à
extrema direita, dentro do próprio MFA, havia alguma indecisão ideológica, logo apareceram
figuras (figurões), que mais não queriam, que mudar algo para que tudo ficasse na mesma,
Excessos havidos, aconteceram “apenas”, porque haviam indefinições ideológicas em larga franja dos mentores da revolução. 
Tenho para mim, que o 25 de Abril, enquanto revolução,apenas o foi, após o 11 de Março, e o sonho ideológico do 25 de Abril,( a perspectiva de construção de uma nova vida, livre, democrática e independente), esfriou e muito, em 25 de Novembro de 1975.


Algumas coisas foram feitas em prol da população na Freguesia de Belas, como uma
creche, um Parque Infantil. Esses projectos foram realizados no pós 25 de Abril ou antes?













- Muita coisa foi feita em prol das populações no pós 25 de Abri, foi um sonho colectivo onde as
populações na generalidade do país se organizou em comissões para desenvolver trabalhos de envolvimento local.
A  Freguesia de Belas, não foi excepção, em qualquer das localidades da Freguesia haviam as chamadas organizações Populares de Base, designadamente as Comissões de Moradores, de Proprietários e Moradores e de Proprietários.  
O próprio Movimento Associativo teve nesta altura grande desenvolvimento, era uma forma de promover a participação das populações em movimentos culturais até então bastante restritos e muito mas mesmo muito, controlados pela censura.
Voltando às Comissões acima mencionadas, foi por seu  intermédio, ou com a sua
participação, que se recuperaram grandes zona populacionais, através delas foram ainda
desenvolvidos projectos de instalação de redes de água e esgotos, parques e jardins. 


No caso particular da Idanha foi através do trabalho das Comissões de Moradores, com a colaboração,na época, de grande parte da população, que foram
criadas as bases para a fundação 



Creche Popular da Idanha

Construído o recinto da Associação de Moradores da Idanha
Criados espaços ajardinados
Construido um Parque Infantil no Bairro
Construido um Parque Infantil no Largo MFA 
(entretanto já destruído)
Reestrutura e reconstruída a rede de adução da água ao Chafariz da Idanha
Recuperadas e dignificadas as condições de habitabilidade do então conhecido como Aviário
Montebelo

Acha que nos dias que correm seria necessário existir um novo 25 de Abril?
Não, hoje, (até pelo actual enquadramento na U E), era impensável um 25 de Abril, digamos
com o sinal de esquerda com que era espectável que tivesse acontecido o 25 de Abril de 1974.
Na época foi um grito de revolta, foi a libertação do fascismo, foi o corte com um passado de
vergonha nacional, havia uma guerra colonial, a que era urgente pôr termo, havia grande
insatisfação da população.
Haviam enfim, condições criadas para que a revolução tivesse êxito.
Hoje a sociedade está muito mais dividida. Não me parece ser viável a repetição do facto.

Este feriado a cada ano que passa, parece que caiu em esquecimento. 
Como vê a inércia da sociedade (ou parte dela) em relação a um dia tão importante na nossa história?

- Não, as comemorações do 25 de Abril, não caíram em esquecimento, é de facto uma situação
que nos querem fazer crer, mas não, de todo.


Neste dia, há milhares e milhares de pessoas na rua, nos desfiles comemorativos do 25 de Abril. Recordo até, que há não muito tempo (2006, 2007, 2008 e 2009), a Junta de Freguesia de Belas, através do seu Pelouro da Cultura, organizou exposições temáticas sobre a data, com grande aceitação por parte das pessoas e de algumas escolas. Aliás o “nosso” GB, tem regularmente recordado a data, como por exemplo, vai acontecer este ano.


Uma mensagem sobre esta época, não só o 25 de Abril, mas tudo o que o nosso Portugal e
os Portugueses passaram no antes da revolução?
Era duro, muito duro o tempo vivido no fascismo, com todos os defeitos inerentes a uma causa
que considero injusta, a guerra colonial, acabou por despertar algumas curiosidades.
O grande fluxo emigrante registado nos anos 60, foi naturalmente uma forma das pessoas tomarem
conhecimento com outras realidades, a movimentação de militares dentro do próprio país,
permitiu a esses mesmos militares tomarem conhecimento com outras realidades, isso “abriu
a pestana” a quem nunca tinha saído da sua terra.
A interioridade, o analfabetismo, a fome, a falta de condições básicas de vida, o abandono de
velhos e doentes, a falta de assistência à saúde, a caridadezinha, enfim seria fastidioso o rol
das carências que o fascismo provocou nas pessoas, carências aliás, que nos provocaram em
certas áreas, um atraso, em relação ao resto da Europa, ainda hoje bastante evidente.

Um muito obrigado ao Sr. Fernando Grave, que nos deixou este testemunho, sem papas na língua.
As fotos aqui deixadas, foram cedidas pelo Sr. Fernando Grave. 

Beijinhos a todos!
Sandra C.
...

3 comentários:

  1. Grande testemunho de quem sempre lutou pelo bem comum.

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  2. Gosto tanto de conhecer estes testemunhos incriveis, que orgulho :)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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