quarta-feira, abril 25, 2018

Entrevista- O amor não escolhe opiniões...

Olá a todos!
No tema deste mês ainda não tinha tido um momento de entrevista, deixo-vos então a entrevista e os pontos de vista deste casal que se conheceram já após o 25 de Abril.
Cada um viveu esta altura de formas diferentes, o Sr. José em Portugal e a Srª Bernadete vivia em Angola. Vamos então conhecer duas histórias deveras interessantes...

Como se conheceram?
Bernardete: - Conhecemo-nos no local de trabalho.
José: - Conhecemo-nos no local de trabalho.


À data do 25 de Abri de 1974 onde viviam?
Bernardete: - Vivia em Angola, em Luanda.
José: - Vivia em Queluz.

O Sr. José sentia que na sua vida ou na vida das pessoas próximas de si, existia repressão?
Existia na medida em que não se podia expressar as opiniões quanto ao regime pré 25 de Abril.

Em que termos? 
Uma vez elementos ligados à P.I.D.E apareceram em minha casa, foi o meu pai que atendeu e as perguntas que lhe fizeram foi o que é que se falava lá em casa; nessa altura já estava a cumprir o serviço militar e o que foi dito pelo meu pai sobre o que se discutia la em casa respondeu que não falava em mais nada alem do futebol e na vida do dia-a-dia.

Onde é que se sentia mais isso?  
No local de trabalho, na altura trabalha na presidência do conselho, a sede era em São Bento, não se podia falar livremente, a não ser sobre o trabalho. 
Nunca cheguei a ser perseguido, pois não expressava as minhas opiniões, os meus temas de conversa era o trabalho e a vida diária. Mas nas saídas com amigos, discutíamos a situação do regime em que se vivia. 

Srª Bernandete como era a vida quando vivia em Angola ? 
Muito feliz, não se falava em política, havia muito convívio. Havia também repressão em Angola, perseguição e também presos políticos. 
Contudo nunca senti essa repressão. O meu pai ouvia uma radio na altura que era proibida, era a Rádio Moscovo. 

Ainda estudava? Já trabalhava?  
Estudava e trabalhava, estava a fazer o que na altura se chamava 2º ciclo. Trabalhava no sindicato dos enfermeiros desde 1969 até 1971 depois fui trabalhar para a direcção dos serviço de saúde e assistência de Angola (depósito de medicamentos). Onde trabalhei até Junho de 1975. 
Depois vim de ferias a Portugal, onde só se podia trazer 5.000$, meti os papeis para o quadro geral de adidos (era a integração dos funcionários que vinham de Angola para serem recolocados nos serviços estatais).  

Sr. José também chegou a ir para o Ultramar combater? Em que ano?

Sim, estive no Ultramar, na província da Guiné Bissau. 
De 1969 a 1971. Cheguei em Fevereiro à Guine, e embarquei de regresso a Portugal no final do ano de 1970.

Alguma vez teve noção para o que ia? Sentiu medo pela sua vida alguma vez?
Tinha noção para o que ia. Ia defender uma causa. mas não se sabia o que iria resultar.
Temi pela vida e senti que ia defender uma causa que não sabia para o que servia...
Embora não tenha combatido, a minha função era decifrador cripto, consistia em decifrar mensagens enviados entre as forças militares.

Como teve conhecimento que se tinha dado uma revolução em Lisboa? O que sentiu? Achava que se tratava de uma coisa séria?
Fui apanhado de surpresa no dia 25 de Abril, foi a namorada de um irmão meu que me disse que havia uma concentração militar em Lisboa.
Quando soube sai de casa e fui para ir trabalhar, na altura no Ministério da Agricultura que era na Praça do Comercio, mas o MFA não me deixou passar, porque o Ministério já estava cercado pelas tropas do MFA, dali segui para o convento do Carmo, onde já havia concentração militar, e como vi que aquilo podia dar para o torto, voltei para casa, onde fui acompanhando os acontecimentos pela televisão.
Senti que desta vez era mesmo a serio, depois do golpe falhado das Caldas, senti que desta vez seria a sério.

Srª Bernadete, esta noticia chegou onde estava quanto tempo depois? O que sucedeu a seguir?
Soube da noticia logo no próprio dia, ao inicio da manhã começou a constar-se que havia um golpe de estado na Metrópole, como era chamado o país. 
Depois começaram a aparecer os partidos que estavam na clandestinidade, MPLA, UNITA e FNLA. Falavam na rádio, dando indicações de querer falar com os governantes portugueses. 
Mas na altura não se ouviu falar em guerras, começou a haver uma junção para uma independência coerente.
Mas houve uma junção dos militares portugueses, com os militares dos partidos, o governo de Angola havia cargos políticos onde estavam integrados dirigentes dos 3 partidos.
Começou a haver desentendimentos entre os três partidos, onde começou uma guerra entre a FNLA e o MPLA, entretanto o general Rosa Coutinho mandou desarmar a FNLA e deixou o MPLA armado, pouco tempo depois o General Holden Roberto abandonou Angola ficando a UNITA e o MPLA.
Foi quando o MPLA, que queria governar sozinho começou a luta armada com a UNITA, acabando com a morte do líder Jonas Savimbi e por isso Angola ficou entregue a um só partido, o partido comunista e dai a debanda dos Portugueses, devido ao discurso do presidente do MPLA que incitou o povo Angolano para correr com os portugueses por estes serem colonos. 
Sendo ele casado com uma portuguesa, não percebo qual seria a ideia dele.
Se tivesse havido um entendimento entre o Dr. Agostinho Neto e o Dr. Jonas Sovimbi, Angola não teria ficado como ficou. Isto na minha maneira de pensar...

Como aconteceu a vinda para Lisboa?
Eu vim de ferias em Julho de 75 com a ideia de regressar, até tinha passagem de ida e volta, vim de avião. Entretanto as coisas começaram a complicar-se em Angola, pelas noticias que ia recebendo, e eu optei por ir ao ministério da administração interna, saber qual seria a hipótese de eu ser integrada cá em Portugal no quadro geral de adidos; como tinha comprovativos em como era funcionaria publica, disseram que apenas seria necessário preencher uns documentos, quando fui entregar os tais documentos, esqueci-me de colocar a minha categoria, e o funcionário que lá estava fez.me esse alerta, eu era escrituraria dactilografa e como já havia muito serviço acumulado com a debanda de funcionários, o Sr. Perguntou-me se eu queria ficar logo a trabalhar naquele dia, mas só começariam a pagar depois de ser integrada, como tal, não fiquei logo nesse dia, pois já tinha um emprego como tarefeira no LENEC.

Conseguiram trazer alguns dos seus pertences? 
Como tinha vindo de ferias, não trouxe nada a não ser a bagagem de ferias, deixei lá muita coisa que me era querida, pois não houve a hipótese de mandar vir.

Quando chegou a Lisboa o que aconteceu? Para onde foi? 
Fui viver para casa de uma tia materna que me recebeu, no Largo do Rato.

Quanto tempo demorou até de restabelecer por cá?
Ao fim de uma ano aproximadamente e com o regresso da minha irmã mais velha, fomos viver as duas para um apartamento em  Benfica.

Sentiu discriminação alguma vez?
Senti descriminação em vários momentos, pelas pessoas de cá que diziam que nos vínhamos tirar o lugar deles.

Conseguiu voltar à sua terra?
Ainda não consegui voltar a Angola, Porto Amboim, onde nasci, tenho muitas  saudades.

Acham que tudo o que aconteceu, foi essencial para o nosso Portugal, ou as coisas podiam ter sido feitas de outra maneira?
Bernardete: Podiam ter sido feitas de outra maneira, nomeadamente nas colónias Portuguesas. 
Pois quando o Salazar morreu e Marcelo Caetano tomou conta do poder, começou a haver certas melhorias em Angola nomeadamente nas universidades, nalgumas províncias onde não havia liceus, começaram a existir.

José: Foi essencial, mas houve alturas em que havia uma incerteza em relação ao estado do país

Uma mensagem final sobre o tema

Bernardete: Para mim o 25 de Abril em parte foi bom porque na altura já era contra a tropa Portuguesa ir para la defender um país, morreram tantos homens para quê? Com que finalidade? Quem cá estava entregou Angola assim de mão beijada, para que tantas mortes?

José: Eu acho que foi bom, principalmente para as tropas que estavam nas colónias, pudessem regressar e deixassem de enviar “crianças” para a tropa.
Deixou de haver a censura, podia ler e ouvir o que queria, o povo libertou-se da repressão passando a viver em liberdade. 
A partir deste momento começou a haver um endireitar das coisas.

Algumas curiosidades que o Sr. José partilhou:
Na tropa, ocupava o tempo em petiscadas com os camaradas e a jogar à bola, nunca sai do quartel, porque a minha função era cripto, consistia em decifrar as mensagens, tive a sorte de nunca ter estado na frente de batalha.


Um muito obrigado ao Sr. José e à Srª Bernardete pela disponibilidade de contar estas histórias, é sempre bom ouvir os dois lados das coisas.
A todos um bom 25 de Abril!

Beijos e abraços
Sandra C.


2 comentários:

  1. Que entrevista fascinante!
    Obrigada por este momento *.*

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  2. Adorei! Entrevista com um valor imenso! Parabéns:)

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