terça-feira, março 06, 2018

Maria... na corda bamba de uma vida conturbada.

A imagem aqui deixada em nada tem a ver com o tema, apenas é uma imagem da minha autoria e que sei que a Maria gosta, pois é um local que lhe dá paz e tranquilidade...

A entrevista que hoje vou deixar, não deixa margem para dúvidas.
É um tema polémico, que ainda hoje temos medo de falar, seja por vergonha, por ignorância, por medo de represálias...
Hoje, nu e cru vamos falar de violência doméstica.
Sim... daquela que quando acontece a primeira vez, a vítima pensa que foi só aquela vez e perdoa, uma e outra vez.
E a primeira e a segunda vez vai-se tornando uma bola de neve que se transforma em algo de grotesco e sem descrição...
Por motivos óbvios, a identidade da pessoa em causa foi alterada.
As palavras ditas em baixo podem de alguma forma ofender os mais sensíveis, mas é efectivamente um assunto que se tem de agarra o touro pelos cornos! 

A vida não tem sido muito madrinha contigo, tem sido antes madrasta... 
Quando é que te apercebeste que algo de errado se passava com ele? 
- A primeira vez que me apercebi do seu carácter controlador,  foi num jantar em que estávamos os dois   
Tudo aconteceu quando na mesa atrás, estava um casal a pagar e a rapariga disse um graça qualquer e eu sorri... na altura ele começou logo a dizer que não gostava de mulheres papagaias. 
Ficou logo um mau ambiente e essa reacção nunca me saiu da cabeça.

Quando aconteceu a primeira vez que foste agredida? Física ou também psicologicamente? Que reacção tiveste? Tiveste noção do que te tinha acontecido? 
- Agressões físicas só tive uma numa noite, porque que ele quando bebia um pouco mais, embirrava por tudo e por nada e eu sem perceber porquê levei 2 estalos. 
Fiquei com a sensação de ter ficado sem cabeça pois nunca tinha levado um estalo na minha vida, nem dos meus pais.
Nessa noite eu disse para ele se ir embora e foi. Mas no dia seguinte voltou e pediu desculpa...

As agressões ocorreram logo no inicio de viverem juntos?
 - Vivi com ele 2 anos sendo o primeiro ano muito bom. Ele foi muito importante e amigo na altura em que fiquei sem a minha mãe e me divorciei.
Sempre tratou me muito bem e à minha filha também. 
Mas o seu amor louco e doentio começou a crescer e foi-me afastando da família, dos amigos e das colegas sempre tentando absorver o meu universo, a minha privacidade e até quase os meus pensamentos.

Porque achas que ele se tornou uma pessoa agressiva?
- Por várias razões. O meu agressor conheço-o desde que me conheço a mim. Andámos na escola, os nossos pais andaram na mesma escola.
 A mãe dele morreu muito cedo deixando-o com 14 anos entregue a um pai violento e mulherengo que o pôs na rua com essa idade. 
Isto nos anos 80, pois ele nasceu em 69 e como ele dizia "teve de se fazer à vida" ... roubando, consumindo drogas, dormindo aqui e ali. Nessa altura deixei de ter contacto com ele. 
Sei que em 92 foi preso por uma série de roubos e teve 4 anos e meio de prisão. 
Sempre fomos amigos e éramos o amor de criança nunca concretizado. Quase platónico.
A vida passou e depois de divorciados e já com 40 e tal anos namoramos e vivemos juntos.
Sendo ele ex-militar, Para-quedista e da Legião Estrangeira, é um homem robusto e com treino especifico para matar em defesa pessoal. 
Uma pessoa assim tem de certeza muita agressividade e ao mesmo tempo uma bipolaridade que transforma o melhor amante, marido e companheiro num monstro, bastando para isso apenas uns momentos e umas cervejas bebidas.
PREDADORES, é como são chamados pela policia, psicólogas e por nós vitimas, estes são homens, (que no meu caso) são inteligentes, de sentimentos extremos e de uma esquizofrenia que os leva a acreditar que eles é que têm razão em tudo. 
E que todas nós mulheres, somos umas putas. E sem terem qualquer respeito pela condição humana, sugam-nos a vida e a auto-estima. 

Quanto tempo depois da primeira vez que foste agredida tiveste coragem para denunciar?
 - No meu caso a violência foi psicológica enquanto coabitamos. Consegui que fosse trabalhar para o estrangeiro e na altura aproveitei para ir viver com o meu pai mais a minha filha. 
Consegui começar a libertar-me um pouco, deixando assim de me dominar tanto. Pensava eu...
Nessa altura começou o inferno do controlo por telefone, as ameaças que se não atendesse viria embora e faria a minha vida num inferno. 
Foi aqui a primeira tentativa de apresentar queixa na esquadra. Fui aconselhada a manter o contacto com ele, pois apresentando queixa ele teria de vir cá prestar declarações e eu queria-o longe.
Fui sempre atendendo o telefone, até um dia em que fui tão mal tratada, tão ofendida, que desesperada pedi ajuda ao meu pai e fomos apresentar queixa na esquadra, onde até aos dias de hoje sou super bem atendida. 
Sempre com um olhar e atendimento cúmplice com o meu sofrimento e condição de vitima.
Após a queixa, avisei que ele viria assim que pudesse. Ai fui aconselhada a cortar o contacto e a desligar o telemóvel que nos mantinha em contacto

Quando foi a altura em que disseste BASTA? Saíste de casa? Foste para alguma instituição?
- Avisei as autoridades que iria começar a ser perseguida, decidi fugir para casa da minha irmã noutro concelho.
Pedi transferência no trabalho e claro levei a minha filha, mudando toda a nossa rotina.
Todo o meu percurso e dia-a-dia passou a ser descrito no relatório da esquadra. Fiquei com estatuto de vitima e foi-me atribuído um aparelho de tele-protecção. Passado 2 semanas ele chegou....
Entre muitas coisas que ele fez,  no nosso bairro (pois ele mora no mesmo sitio que o meu pai) fez uma perseguição diária ao meu pai e a mim quando o ia visitar. Fui ameaçada de morte e fui perseguida, até que já no ano de 2016, o Ministério Publico considerando que eu corro risco permanente de vida decidiu acusá-lo em Tribunal, sendo condenado a 2 anos e 11 meses de pena suspensa com pulseira electrónica e uma medida de afastamento de 300 metros da minha pessoa. 
Ordem essa que não está a ser cumprida e da qual já solicitei medida de restrição, que o impede mesmo de pisar um raio restrito que me protege. Encontro-me a aguardar uma decisão...

Por tudo o que relataste a tua condição psicológica ainda hoje está afectada?
 - Sempre que sou abordada por ele, aquela voz provoca-me um terror e tremor de tal maneira, que até hoje não durmo sem medicação e sem anti-depressivos.

A situação por si só já é grave, mas atendendo que tinhas a tua filha ainda pequena tudo se torna mais complicado ainda.
Como foi o crescimento dela no aspecto psicológico? Revoltada?
- A minha filha sempre foi privada de grandes cenas e destas situações, pois sempre consegui abafar muita coisa. 
Ela tendo o pai no estrangeiro, também passava algum tempo fora e ia muitas vezes para casa dos avós a meu pedido. 
Feliz ou infelizmente foi obrigada a crescer.  É uma menina mulher com 17 anos muito equilibrada, calma, tranquila, culta e muito, muito minha cúmplice e amiga.

Consegue levar a tua vida de uma forma tranquila? Ou de um modo geral sentes-te sempre em constante sobressalto?
 - Sinto que estou destroçada, cansada, aterrorizada, sem paz, sem vida, a aprender a ficar forte de novo. 

Que mensagem queres deixar a outras mulheres e homens que sofrem de violência doméstica.
Que somos muito fortes, que nunca duvidem de vós. 
E num dia quando não puderem mais, peçam ajuda, vão à policia contem a uma amiga, liguem para a APAV, falem, gritem, fujam e nunca olhem para trás. 
Há sempre alguém como nós e pior que nós a precisar de ajuda... tenham a coragem que voces sabem que têm e nunca deixem de gostar de vós e não permitam mais abusos. Digam BASTA. ....

Maria

1 comentário:

  1. Parabéns Sandra, excelente testo muito bem escrito e quero deixar muita força a "maria", beijinhos

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