quinta-feira, janeiro 31, 2008

Um texto com pernas para andar ou não? O que acham?

Como já devem ter reparado, gosto bastante de escrever, no entanto nos ultimos tempos, com a falta de tempo e preparativos do casamento, ando sem tempo e também algo preguicosa.
Só no outro dia é que reparei que comecei a escrever este texto há já alguns meses...
Desde já vos adianto que este texto nada tem a ver com a realidade, nem com nada que me tenha acontecido, o objectivo deste texto é apenas juntar um pouco o lado misterioso de Sintra e contar factos que até podem ser acontecido, no entanto não passam de histórias...
Será que tem pernas para andar? O que acham dele?

"Estava esgotada, ansiava por aquelas férias como quem anseia por uma cama após uma grande viagem.
Tinha saído do trabalho há pouco mais de duas horas e ainda não acreditava que quando acordasse no dia seguinte, não seria para correr para os transportes públicos, seria sim para umas relaxantes férias na serra de Sintra.
Podia ter escolhido ir para outro sítio qualquer, mas resolvi ficar por cá. Uma coisa era certa, durante duas semanas, não ia existir telemóvel, jornais, televisão, nem nada que me pudesse ligar ao mundo.
A única coisa que me acompanharia seria o meu relógio de pulso.
Nessa mesma noite fiz -me ao caminho, o Ic 19 estava o caos, até parecia que toda a gente tinha saído à rua naquela noite para tornar a minha espera ainda mais desesperante, coloquei um Cd da Sarah Brightman para relaxar e finalmente entrei na parte histórica de Sintra.
De dia esta vila é bonita e tem os seus encantos, mas de noite ainda se tornava mais misteriosa. Tomei a direcção de Colares, passei pelas suas caves, sabia que estava próxima do meu refúgio.
Mais duzentos metros e virava à direita. Não existia quase iluminação, lá enfiei o carro pela estrada de terra batida e pensei para comigo que me fazia jeito um co -piloto, aquela estrada estava cheia de altos e baixos, portanto mesmo indicado para o meu carro, habituado apenas às estradas de alcatrão.
Cheguei, a imponente casa estava diante dos meus olhos, escassas luzes iluminavam o negrume daquele casarão. Era imenso, cada pedra daquela casa deveria ter uma história para contar.
Sai do carro e procurei a campainha para tocar, mas não a encontrei, apenas vi uma sineta, com um cordel que pendia para a parte de fora do muro e junto à sua extremidade uma placa de azulejo pintado à mão que dizia “ Quinta da Lua”.
Fiquei tão impressionada que nem dei conta de o portão se abrir silenciosamente. Lá entrei com o carro, estacionei-o mesmo em frente à casa. À porta fui recebida pela anfitriã, uma senhora com cerca de 70 anos, muito bem vestida e penteada, apesar de algo démodé.

- Boa noite! Presumo que seja a Sheila, a amiga da minha neta.

- Olá boa noite, a senhora é a D. Inês. A Marina falou-me muito de si.
Desculpe a hora tardia, mas como imagina o IC 19 estava caótico...

- Não há qualquer problema menina Sheila, nesta casa ninguém se deita antes 23.30, não causou qualquer transtorno.
Provavelmente não jantou, já pedi à Ivone que lhe prepare uma refeição ligeira. As malas não se preocupe com elas, o Sebastião traze-las já para dentro.

E lá entramos, assim que entrei naquela casa, foi de todo impossível não ficar boquiaberta com tanta beleza.
Pelas paredes existiam quadros antigos, verdadeiras obras de arte que deviam pertencer há já algumas décadas à família. Eu que era uma apreciadora de antiguidades senti-me no paraíso. Só voltei a mim, quando D. Inês me chamou:

- Pelos vistos gostou da casa? Vamos até à sala, estamos mais confortáveis lá.

- Com certeza, D. Inês. Peço desculpa pela minha reacção, mas tudo o que são antiguidades me fascinam...

- Esteja à sua vontade, a Marina já me tinha dito que gostava de antiguidades, portanto veio para o sítio certo.

Quando cheguei à sala de jantar, até fiquei arrepiada, a beleza daquela sala era algo de estonteante, sentia-me num qualquer palácio onde só lá vive memórias e não numa casa onde vivia pessoas de carne e osso.

- Sente-se menina Sheila. A Ivone traz já o nosso jantar.

- Mas a D. Inês ainda não jantou? Ficou à minha espera...

- Não se preocupe, o que nesta casa ninguém tem, é pressa.
Ora aqui vem a Ivone com o nosso jantar.

- Boa noite menina, espero que a sopa esteja do seu agrado.

- Obrigado Ivone. Pode deixar que eu sirvo - me.

Quando destapei a terrina da sopa pensei para comigo, então isto é que é a refeição ligeira? Ora se não estava uma bela sopa de couve portuguesa e feijão vermelho, com pedacinhos de chouriço a perfumá-la, eu então deveria estar a sonhar com ela, pois o aroma era tão intenso, que quase fiquei saciada só de olhar.

- Quer que lhe sirva um pouco se sopa D. Inês?

- Se não se importar.

- Claro que não, está com um aspecto divinal...

- Tudo o que de frutos e vegetais comemos cá em casa, vem do nosso quintal. Temos alguns hectares de terrenos onde plantamos de tudo um pouco.

- É interessante saber, que ainda há pessoas que se dão ao trabalho de manter essas memórias vivas.

E começamos a comer. A seguir à sopa, fui surpreendida por uma tábua de queijos e de enchidos, acompanhado de pão com um aspecto e cheiro delicioso.
Quando acabei já não podia mais, apesar de cansada nem me passava pela cabeça ir-me deitar com a barriga cheia.
D. Inês disse que ia descansar, mas antes, ainda me pediu que a acompanhasse até onde seria o meu quarto.
Subimos as imponentes escadas e vi um corredor do meu lado direito com cerca de uma dezena de portas.
D. Inês continuou a andar e eu segui-a, o meu quarto era o último daquele corredor, tinha uma porta de madeira bastante trabalhada. A velha senhora colocou a chave na porta, rodou-a uma e outra vez e a porta abriu-se, eis o meu refúgio.
Era lindo, com uma cama de dossel e um longo véu que servia para proteger de intrusos inconvenientes, toda a decoração era em tons de bordeaux e salmão. Fiquei maravilhada.
D. Inês disse-me para eu ficar à vontade, como se estivesse na minha própria casa. Que me servisse da biblioteca e fizesse tudo como se a casa fosse minha. Despediu-se de mim com dois beijos, agarrou-me nas mãos e disse-me.

- A Sheila não imagina como é importante para mim receber pessoas nesta casa. Sinto-me muito sozinha desde que o meu marido morreu. Os filhos e os netos têm a sua vida e estão sempre demasiado ocupados para me ouvir.
Mas esta casa tal como eu, precisa de vida, precisa de gente a entrar e a sair, precisa que se interessem pela sua história e que a compreendam. Por isso fico muito feliz pela sua presença e sempre que tiver alguma dúvida, estou à sua disposição para satisfazer a sua curiosidade.

- Obrigado D. Inês. Bom descanso.

E ali fiquei a observar aquele maravilhoso quarto, estive tentada a deitar-me, pois estava bastante cansada, mas resolvi descer e ir buscar um livro à biblioteca.
Por falar nisso, a D. Inês não me tinha dito onde ela ficava, não faz mal ia descobri-la. Sai do quarto e percorri aquele longo corredor, quando cheguei ao fim e vi as escadas, tive uma súbita curiosidade de ir para além daquele corredor. Em frente aos meus olhos vejo uma outra parte da casa que não tinha visto quando subi pela primeira vez aquelas escadas.
As paredes estavam pintadas de rosa chá, existiam também dez quartos, ou pelo menos dez portas e no fim desse corredor uma porta completamente diferente das outras, tosca, sem qualquer feitio que não fosse o estritamente necessário para fazer a função dela.
Tive um desejo incontrolável de abrir aquela porta, mas contive-me a tempo e comecei a ouvir passos...."


Agora espero pelas vossas opiniões sinceras....

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