sábado, fevereiro 24, 2007

Ensaio sobre a Cegueira – José Saramago

Muito já tinha ouvido falar deste livro e também conhecia uma passagem ou outra, mas sendo a 1ª coisa que lia de Saramago, não sabia o que havia de esperar e não esperava de todo o que li.
Quando peguei no livro para começar a lê-lo, parecia que me estava ele a perguntar...”Será que queres mesmo ler-me?” “dizia” em tom de desafio.
Foi numa hora de almoço á beira-mar, o dia estava agradável, apesar de uma brisa algo fria, lá em baixo na praia vi uns miúdos a brincar, ouvia-se o barulho do mar a enrolar na areia e pensei, “Como seria se eu não visse?”, esta pergunta para qualquer um de nós que vê, é tão estranha que é raro alguém se questionar sobre tal coisa.
Pois é, e se eu não visse como o senhor que passa todos os dias á porta da loja, e se eu não visse como o primo Jorge, e se.... bem, rodei o pescoço para tentar descontrair-me e comecei...

“O Disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. (...) Os automobilistas, impacientes, com o pé no da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. (...) O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, (...) O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás deles buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, (...) batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, (...) pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, (...) consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego. (...)”
Estou cego, a frase fulcral, a partir deste parágrafo imaginem que aos poucos, todos ficam cegos, uma nação inteira (portuguesa, ou não, é indiferente) cega, tal como uma peste “branca” que vai invadindo os “olhos” da sociedade. Só um (que vê, mas têm que fingir que não) fica para contar a história.
“ (...) é que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o (...)
São “internados” numa “Mitra” qualquer, com “comida” a horas certas (quando ela vem... se morrerem mais depressa melhor), estes primeiros cegos, passam a ser muitos depois, esses muitos passam a tornar o ambiente físico e psíquico um caos.
A partir daqui, o medo, o salve - se quem puder, a falta de discernimento, os princípios passam a ser tudo irreal, ou tão real, que a subsistência grita mais alto que tudo o resto. Morte, Violência, Violações, Putrefacções tudo faz parte do mesmo quadro e o “mundo” passa a ser fantasmagórico,
“ (...) ser fantasma deve ser isto, ter a certeza de que a vida existe, porque quatro sentidos o dizem, e não a poder ver, (...)”.
Um incêndio coloca-os de novo em “liberdade”,
“ (...) Diz-se a um cego. Estás livre, abre – se – lhe a porta que o separava do mundo, Vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada nos servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar. (...)”
Divagando pelas ruas, os que não vêem sentem a podridão, a que vê, sente a duplicar. O “mundo” que até então conhecia, agora faz parte de um mapa sem sentido, com estradas que não levam a lugar nenhum, mesmo assim numa tentativa de voltar á vida normal procuram algo que os remeta para esse espaço físico, o resultado é descobrirem que nada mais vai voltar a ser como antes.
Já contei mais do que devia da história, se não leram, façam-no, mas atenção se estão habituados a literatura mais light e sofrem de perturbações gástricas ou são facilmente impressionáveis, não o façam. Pela vossa saúde.
Por último,
“ (...) Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma, (...)”
Da próxima vez que se “apagar” a luz, pense que os olhos de Dentro também vêem...

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